A recente decisão da CBF de equiparar os títulos de campeão da Taças Brasil e Roberto Gomes Pedrosa ao atual campeonato brasileiro consiste, entre outros aspectos negativos, num caso de afronta à memória do desporto nacional.
Em primeiro lugar, não é concebível comparar o atual modelo de disputa do Brasileirão com as duas competições em questão. Pior ainda, é reconhecer dois títulos nacionais com importância equivalentes no mesmo ano. E foi justamente isso que fez a CBF ao considerar campeões brasileiros do mesmo ano os clubes que venceram o Robertão e a Taça de Prata. É como se hoje, o campeão da Copa do Brasil tivesse a mesma importância do campeão brasileiro. No entanto, estes são aspectos técnicos e desportivos do problema e, neste artigo, prefiro a abordagem da defesa da memória do futebol brasileiro.
Quem tem mais de 30 anos sabe exatamente o valor dos campeonatos regionais até meados da década de 80. Motivo de orgulho para o torcedor era ser campeão carioca ou paulista. Atualmente, ocorre o inverso. Os meninos de hoje querem ser campeões brasileiros, da Libertadores e do mundial da FIFA. No lugar dos confrontos de botões de Vasco e Flamengo, duelos virtuais entre Real Madrid e Milan no vídeo game. Quanto à isso, não há problema. Tudo bem, afinal, cada tempo com suas alegrias e agonias.
Eis então, com tantas diferenças de percepções e sentimentos entre fatos separados por mais de 40 anos, que num passe de mágica tirado da cartola, a CBF fez de competições menores em seu tempo um gigantismo artificial atual. O Santos de Pelé tornou-se uma lenda principalmente por seus seguidos títulos paulistas e não por suas glórias nas duas taças “nacionais” agora vitaminadas. Suas maiores glórias internacionais se deram no Maracanã, algo inimaginável no ambiente atual de rivalidade exacerbada entre os times do Rio e São Paulo. O Fluminense foi maior com a inesquecível Máquina Tricolor do que na jornada de 1970 na Taça Brasil. Quando eu era menino, ao defender o meu Vasco da empáfia e orgulho da torcida rubro negra na era Zico, de nada adiantava eu lembrar o primeiro título brasileiro alcançado em 1974. Os rivais diziam que o brasileiro era menor que Estadual. E era!!
Foi bacana ver Pelé com medalhas ao peito registrando para sempre os 6 títulos brasileiros que ele conquistou. Mas, fica a pergunta: por um acaso não foram distribuídas medalhas por ocasião das conquistas de outrora? Não havia troféus para os vencedores? Os louros intempestivos de hoje tentam inverter os fatos, mas os verdadeiros feitos épicos dos nossos times há mais de 40 anos estão vivos na memória dos torcedores veteranos. O polêmico gol de Valido, em 44, no tricampeonato rubro negro. O Fla x Flu da Lagoa. O gol vascaíno com sabor de Cocada em 88. Maurício fez explodir a agonia botafoguense após 21 anos de fila no estadual. Quem não se lembra do antológico gol de Basílio em 1977 com a camisa do Corinthians? Rondinelli em 78. Assis - o carrasco tricolor por duas vezes no início dos anos 80. O Bangu de 66, o América de Edu em 60. Estas são as maiores memórias dos clubes do futebol brasileiro daquela época. Portanto, deveriam ser destacadas, preservadas de forma a contar a história do nosso esporte em sintonia com a verdade. Dando a César o que é de Cesar e aos Clubes o que de fato ele conquistaram. Falseando a história, ninguém entenderá a razão da antiga grandeza de América e Bangu, ou o motivo de Bonsucesso, Portuguesa e Madureira terem feito excursões à Europa para jogar contra grandes clubes.
O casuísmo e a busca desmedida pelo Poder costumam fazer vítimas. A memória vive sofrendo atentados ao longo da história. No esporte, principalmente nos mais populares, não é simples fazer isso. Há paixão exacerbada e milhões sorriram e choraram com gols e jogadas inesquecíveis. Porém, a morte das gerações que lotaram os velhos estádios ajudará no inevitável esquecimento que acaba levando à distorção dos fatos ocorridos. Perdem-se as fontes primárias, há influência de elementos novos ao longo do tempo e isso é natural. Anormal e criminoso é tentar refazer com a força da caneta uma nova história.
Cabe ressaltar que a expressão da memória se realiza com elementos do agora e sobre o fato ocorrido há inexoráveis elementos da percepção do presente, da política e do poder contemporâneos. O contra ponto que equilibra o resultado dessa influência é argumento histórico e a compreensão dos fatos como eles se deram na sua origem.
Neste caso do reconhecimento dos títulos em questão, a impressão positiva que inicialmente é gerada aos clubes que tiveram títulos reconhecidos mascara os mais deslavados interesses políticos e econômicos. É contra isso que a rejeição à decisão da CBF se faz necessária.
As lambanças não terminam por aí. Ademir Marques de Menezes foi menor que os novos campeões repaginados? Friedenreich não foi um mestre na arte de fazer gols? Zizinho, Didi, Vavá, Leônidas e Garrincha não foram grandiosos? Senhores cartolas dos clubes favorecidos, por favor, até vendam suas consciências, mas não troquem suas posições políticas por taças e medalhas de lata. Exijam, no lugar de títulos artificiais, a valorização das maiores conquistas do passado. Enalteçam e valorizem os craques de outrora com a justa homenagem que suas vitórias merecem. Que sejam lustradas as taças conquistadas e que as mesmas não sejam substituídas por outras novinhas, porém sem o brilho da conquista verdadeira.
Salve o futebol brasileiro centenário, criativo, vencedor e dono de uma história linda que não merecia ser manchada por resoluções casuísticas. Meia dúzia de bolinhas não é maior que as conquistas alcançadas em campo. É preciso investir na memória do futebol brasileiro, com museus e arquivos comprometidos com a história de nossos clubes e incentivar a pesquisa histórica nesse campo. Quando isto ocorrer, o episódio dessa distribuição de novas velhas medalhas será melhor contada e boas gargalhadas serão dadas. Ou não, depende de nós.
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