Houve em 1989 uma noite mágica. Dois times disputavam o segundo jogo das semifinais do campeonato brasileiro do ano anterior. Isso mesmo, um jogo que começou com o embaraço do tempo e que parecia não querer acabar nunca.
Vasco e Fluminense não foram campeões de nada naquele dia e nem mesmo alcançaram tal feito nas partidas seguintes. O Bahia foi o campeão brasileiro de 1988. No entanto, tricolores e cruzmaltinos saíram do Maracanã tendo ajudado a escrever uma história épica do nosso futebol.
As legiões romanas, os grandes pelotões de exércitos poderosos também devem ter travado batalhas que poucos viram e que a História pouco as menciona. Em geral, as batalhas finais são as preferidas e mais lembradas.
Vasco e Fluminense daquela noite é uma dessas batalhas ocorridas no meio da guerra. O Flu de Ricardo Gomes, Delei, Assis e Washington vinha de uma vitória no primeiro jogo sobre Leonardo, Geovani, Bismark e Roberto Dinamite – os heróis vascaínos.
O regulamento do brasileiro de 88 era tão estranho quanto seu o calendário e previa que o Vasco só se classificaria se ganhasse o jogo duas vezes no partida de volta. Mas como assim?? Isso mesmo, era necessário ganhar no tempo normal e na prorrogação.
Mas vamos aos fatos do campo de jogo. Logo na primeira partida, a situação ficou difícil para o Vasco, que tinha em seu time um jogador de nome Zé do Carmo. Negro, nordestino e espirituoso, Zé era cabeça de área e fazedor contumaz de gols contra. E justamente na primeira partida das semifinais, o artilheiro suicida deixou sua marca nas redes vascaínas. O problema é que naquela época, o Vasco vivia uma fase de grande dificuldade em vencer o rival das Laranjeiras. Em várias ocasiões, depois de dominar o jogo inteiro, no último minuto, o Vasco levava um golzinho sobrenatural que definia a partida a favor do Fluminense. Ou seja, se já era difícil vencer o bom e sortudo time do tricolor, com o fogo amigo, a tarefa ganhava contornos dramáticos. Com isso, o Vasco saiu do primeiro jogo em desvantagem paro o segundo.
No segundo encontro, fui ao Maracanã com meu pai. Eram tempos de rivalidade intensa, porém sadia. As duas torcidas entravam por qualquer uma dos dois acessos ao estádio. Eu morava próximo à rampa do Belini e essa era sempre a minha opção de entrada. Quando chego ao Maraca, vejo uma enorme confusão e apenas camisas do Vasco a frente do portão fechado e guardado por PMS. Para minha surpresa, mesmo em desvantagem na decisão da vaga, a torcida do Vasco era maior. Piorando a situação, não havia mais ingressos nas bilheterias. Formado o tumulto, enquanto a massa vascaína forçava o portão para entrar, chega a notícia do gol do Flu. Zé do Carmo, dessa vez não fizera contra, mas errou feio e possibilitou o gol do tricolor feito por Donizete.
Mesmo assim, num vacilo do cordão de PMS, a galera furo bloqueio e sobe a rampa em disparada e gritando o nome do Vasco. Na arquibancada, no lado da nossa torcida não cabia mais ninguém e acabei assistindo ao jogo apertado no último degrau das arquibancadas. Quase no fim do 1º tempo, o Vasco empata o jogo numa bela jogada de Roberto Dinamite e forte finalização de Bismark.
No segundo tempo, massacre do Vasco com atuação magistral de Geovane, o pequeno príncipe da colina. No entanto, a escrita e o talento de Paulo Vitor (goleiro do Flu) impediam o gol vascaíno. Atacávamos e nada do gol sair. A torcida do Vasco empurrava o time para o ataque, mas pairava o temor pelo resultado pior.
No último minuto de jogo, o juiz transforma em falta na marca da grande área um penalty claro a favor do Vasco. Confirmado o roubo, o juiz coloca a bola na linha da área para que o Vasco cobrasse apenas uma falta. O que eu vi nos minutos que cercaram esse lance nunca saiu da minha cabeça e acabou de forjar minha paixão desenfreada pelo Vasco.
A eminente desclassificação transformou o final do segundo tempo num desespero. O Vasco atacava sem parar e havia acuado o Fluminense em seu campo. O penalty não marcado soou como um tiro de misericórdia nas pretensões do Vasco. Foi quando o talento de Geovani colocou aquela bola da falta na cabeça de Leonardo que viera correndo como um louco desde o meio campo. A cabeçada saiu como uma bomba e explodiu na rede de Paulo Vitor. Gol do Vasco de forma sobrenatural.
Poucos se davam conta de que ainda era preciso ganhar mais uma vez. Mas a prorrogação chega, com a torcida vascaína em delírio. Vi homens chorando e se abraçando. Dois senhores infartados foram retirados na maca pelos bobeiros. Um cadeirante caído ao chão chorava de alegria e emoção, enquanto eu corria de um lado para o outro gritando sem parar.
Num relance, o Fluminense faz um gol e logo em seguida, Washingto faz outro, numa jogada sensacional. O artilheiro do casal 20 arrancou pelo lado esquerdo da defesa vascaína e aplicou três cortes seguido no goleiro Acácio que ficou caído ao chão, desolado e vencido pelo talento e força do Fluminense. Flu classificado e Vasco, apesar da eliminação, mostrou a todos o quanto o futebol é mágico e emocionante. Perder naquele dia foi ruim, mas a lembrança daquela partida é uma das maravilhas da minha memória pessoal vascaína. Valeu Geovani.
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